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A idade de ouro do gás


Martin Wolf, editor e principal comentarista econômico do FT, escreve sobre o assunto

O mundo está em meio a uma revolução do gás natural. Até mesmo a sóbria Agência Internacional de Energia (AIE) refere-se a um cenário que denomina "idade de ouro do gás". Se tal otimismo revelar-se correto, as implicações seriam não só muito maiores do que as de uma dissolução dolorosa da zona do euro, mas também economicamente positivas. Nunca nos esqueçamos de que nossa civilização baseia-se em fontes baratas de energia comercial. O crescimento econômico dos países emergentes fará a demanda por energia comercial crescer enormemente nas próximas décadas. O gás é relevante.

Essa revolução tem um nome: "fraturamento hidráulico", coloquialmente conhecido, em inglês, como "hydrofracking" ou apenas "fracking". Como aconteceu em quase todas as revoluções tecnológicas do século passado, essa também originou-se nos EUA. A Administração de Informações Energéticas dos EUA explica que "o uso de perfuração horizontal em associação com o fraturamento hidráulico ampliou a capacidade dos produtores de extrair gás natural de formações geológicas de baixa permeabilidade, em particular formações de xisto" *.

É bem-vinda a possibilidade de obter gás natural barato por muitas décadas. Mas isso poderá revelar-se um pacto faustiano. É preciso cuidado em como e quão rapidamente a tecnologia poderá ser adotada: os custos ambientais podem revelar-se pesados.

Embora algumas inovações datem da década de 1970, a AIE afirma que "o advento da produção do gás de xisto em larga escala não ocorreu até que a Mitchell Energy and Development Corporation tentasse, durante os anos 1980 e 1990, tornar a produção de gás de xisto profundo uma realidade comercial em Barnett Shale, no centro-setentrional do Texas". Mas hoje, acrescenta a AIE, "a extração de gás de xisto mudou o cenário do mercado de gás natural nos EUA".

A nova atividade incrementou a produção de gás de xisto seco nos EUA de 0,39 trilhões de pés cúbicos em 2000 para 4,8 trilhões de pés cúbicos em 2010, ou 23% da produção seca de gás nos EUA. E muito, muito mais, está por vir. A EIA estima haver 860 trilhões de pés cúbicos de gás de xisto "tecnicamente recuperáveis" nos EUA, contra apenas 273 trilhões de pés cúbicos nas atuais "reservas comprovadas". Se essa estimativa estiver correta, apenas o gás de xisto supriria o consumo americano de gás durante 40 anos, com base no ritmo atual.

Qual a dimensão das reservas mundiais de gás de xisto? A AIE pediu a consultores que examinassem 48 bacias de gás de xisto em 32 países. O relatório estima os recursos "tecnicamente recuperáveis" de gás de xisto em todo o mundo em 6,6 quatrilhões de pés cúbicos, volume aproximadamente igual às atuais reservas comprovadas. As maiores reservas identificadas, além das localizadas nos EUA, estão na China (1.275 trilhões de pés cúbicos), Argentina (774 trilhões), México (681 trilhões), África do Sul (485 trilhões), Canadá (388 trilhões), Líbia (290 trilhões), Argélia (231 trilhões), Brasil (226 trilhões), Polônia (187 trilhões) e França (180 trilhões). Regiões excluídas dessa análise incluem a Rússia, Ásia Central, Oriente Médio, Sudeste Asiático e África Central. O potencial mundial deve ser ainda muito maior.

Que diferença poderá a abundância de gás natural (inclusive a de gás mais convencional) fazer para o futuro energético mundial? Em seu World Energy Outlook 2011, a AIE comenta que "em todos os cenários analisados,,, o gás natural tem uma participação maior no mix mundial de energia em 2035 do que hoje". Segundo o cenário de sua "idade do ouro", a demanda de gás crescerá 2% ao ano entre 2009 e 2035. Mesmo em um cenário mais cauteloso, referido como "novas políticas", a previsão de crescimento da demanda é de 1,7% ao ano, ou um total de 55% durante esse período. Como resultado, o gás substituirá outros combustíveis, particularmente em geração de eletricidade e aquecimento. Ele também tem grande potencial como combustível para os transportes. No geral, argumenta a BP em seu mais recente "Energy Outlook" (panorama energético), em torno de 2030, o gás poderá vir a rivalizar com o carvão e o petróleo como fonte de energia primária.

A substituição do carvão ou petróleo por gás é desejável do ponto de vista das emissões de gases estufa e muitos outros poluentes. Por unidade de produção de energia, o gás emite pouco mais de metade das emissões de dióxido de carbono do que o carvão e 70% das emissões de CO2 originadas do petróleo. As emissões de monóxido de carbono na queima de gás equivalem a 20% das emissões originadas do carvão. As emissões de dióxido de enxofre e de partículas são desprezíveis. Em qualquer cenário plausível visando controlar as emissões de gases que provocam o efeito estufa, o gás natural terá que substituir outros combustíveis, embora o desenvolvimento de técnicas baratas de captura e armazenamento de carbono também poderão reforçar as justificativas para o uso do carvão. Para a China, em especial, com seu ônus poluidor devido ao uso de carvão, o gás parece fazer sentido.

Mas, trará o gás de xisto a transformação benéfica que alegam seus defensores? Talvez não. O aspecto controvertido dessa tecnologia é o impacto sobre o ambiente. Em artigo publicado na edição de novembro da "Scientific American", Chris Mooney, que escreve sobre ciência, observa que o "fraturamento horizontal exige enormes volumes de água e substâncias químicas. Enormes lagoas ou tanques são também necessários para armazenar o 'refluxo de água' quimicamente poluído que retorna pelo buraco perfurado, após os poços terem sido fraturados". Um único eixo perfurador lateral, requer entre 2 e 4 milhões de galões de água e 15 a 60 mil litros de produtos químicos. Não admira que os críticos aleguem que a nova tecnologia ameaça poluir lençóis freáticos e seja, portanto, um pesadelo ambiental. O artigo sugere não se saber, ainda, se tal contaminação ocorreu. Nessa fase, conclui, os riscos são incertos. As atividades da nova indústria precisam ser rigorosamente monitoradas.

Se é adequado seguir em frente rapidamente com essa tecnologia dependerá de várias considerações: 1- os custos de oportunidade locais da água; 2- as competências e a confiabilidade dos operadores; 3 - a capacidade das agências fiscalizadoras; 4 - os benefícios do eventual gás extra obtido, em comparação com os benefícios de combustíveis alternativos (ou da conservação), inclusive para a segurança; 5 - melhor conhecimento do impacto das tecnologias. Para dar um exemplo, a competição da demanda por água e os perigos da poluição poderão tornar perigosa a extração em larga escala de gás de xisto na China.

O gás de xisto evidencia a engenhosidade dos envolvidos na descoberta de novas fontes de energia. Também sugere a bem-vinda possibilidade de obter gás natural barato por muitas décadas. Mas essa revolução poderá revelar-se um pacto faustiano. É preciso cuidado em como - e quão rapidamente - a tecnologia poderá ser adotada: os custos ambientais podem revelar-se pesados. "Apressa-te lentamente", como os antigos romanos costumavam dizer.

* World Shale Gas Resources: An Initial Assessment of 14 Regions Outside the United States (Recursos de gás de xisto no mundo: uma estimativa inicial de 14 regiões fora dos EUA, 5 de abril de 2011, www.eia.gov. (Tradução de Sergio Blum)

Fonte: Valor Econômico

GE lança projeto de biogás no Brasil


Combustível obtido através de resíduos orgânicos gera energia e reduz gastos em indústrias
A GE Energy, braço do segmento de energia do conglomerado americano, coloca em operação no mercado brasileiro um projeto pioneiro na América Latina cujo equipamento desenvolvido pela companhia utiliza biogás como combustível. A iniciativa é voltada principalmente para unidades produtivas que geram resíduos orgânicos, que são transformados em energia elétrica e vapor através da tecnologia desenvolvida pela empresa americana.
Entre os benefícios, está a redução dos gastos com eletricidade e gás natural, além da diminuição da emissão de gás carbônico durante o processo produtivo. O primeiro projeto de cogeração de energia a entrar em operação no mercado latino-americano foi instalado na fábrica da Bio Springer Brasil, especializada na produção de matéria-prima alimentícia à base de levedura, que fica na cidade de Valinhos, no interior de São Paulo. A GE comercializa os equipamentos no mercado em conjunto com a empresa espanhola Lonjas, especializada em projetos de engenharia e construção para unidades produtivas e que é parceira da companhia no mercado europeu desde a década de 90.
O valor do contrato foi de US$ 500 mil (cerca de R$ 860 mil) “Temos uma expectativa muito grande com essa área pois o potencial com essa fonte de energia na América Latina é muito grande”, afirma Wendell Oliveira, diretor executivo da divisão de motores a gás da GE. A expectativa da GE é fechar mais três projetos de cogeração de energia a biogás até o meio desse ano. Além do mercado brasileiro, a companhia cita Chile e Colômbia como potenciais mercados para a iniciativa.
Por conta das diferentes demandas que podem surgir na área, a GE dispõe de um portfólio de cinco equipamentos, cujas capacidades de geração de energia variam de 300 quilowatts a 9,5 megawatts (potência suficiente para abastecer uma cidade de 80 mil habitantes). “A utilização de cada modelo depende da aplicação e tamanho do projeto”, diz o diretor da GE.
Fonte: Brasil Econômico

Mais energia para o PIB


(*) Paulo Pedrosa

Os números do Produto Interno Bruto (PIB) apresentados recentemente mostraram mais uma vez de forma irrefutável o peso do setor industrial no andamento da economia. Um recuo da atividade da indústria nos últimos meses do ano freou fortemente o crescimento geral do País e acendeu a luz amarela nos gabinetes de governo. Mais do que uma redução do PIB em si, os dados do IBGE mostram uma perda de qualidade e aumento da vulnerabilidade da economia brasileira, cada vez mais voltada para serviços e consumo.

As abordagens tradicionais de incentivo, que recaem sobre desonerações ou subsídios específicos para determinados setores e redução de juros, são medidas que podem trazer algum resultado. Mas não passam de paliativos e mascaram a necessidade de uma política industrial que recupere a competitividade da indústria nacional no longo prazo. Essa política precisa, necessariamente, contemplar a redução das distorções que oneram a produção nacional, como o alto custo da energia, seja a elétrica ou o gás natural. Estudos recentes da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace) comprovam a importância de atacar esses temas: cada R$ 1 a menos pago pela energia se refletiria em R$ 8,6 a mais no PIB brasileiro.

A Agência Internacional de Energia diz que estamos no início da idade de ouro do gás natural, que trará consigo uma mudança no mapa da economia e da geopolítica global. Isso significa que as reservas brasileiras do insumo, associado ou não ao petróleo, podem potencializar uma nova fase do desenvolvimento nacional. Se demorarmos a perceber essa realidade, corre-se o risco de perder a oportunidade de fortalecer a economia e gerar empregos.

Os EUA já vivem uma nova ordem econômica em razão da abundância do gás não convencional (principalmente o gás de xisto, ou shale gas), que fez os preços caírem drasticamente e está incentivando a produção local. Os americanos pagam hoje pouco mais de US$ 3 por milhão de BTU (unidade que mede o gás). No Brasil esse valor chega a ultrapassar US$ 16. Os efeitos começam a ser percebidos: enquanto a indústria química americana se recupera e a de alumínio é ressuscitada, as empresas brasileiras desses segmentos interromperam investimentos em expansão e algumas penam para não fechar as portas, levando consigo cadeias produtivas inteiras.

Obviamente, a situação dos EUA é um extremo neste momento, pois o gás de xisto já está sendo explorado há anos. Mas, mesmo se comparado aos demais Brics, o Brasil é hoje quem paga mais para consumir gás. Além disso, há grande incerteza em relação aos desembolsos nos próximos anos, pois a maioria dos consumidores ainda não tem informações sobre a renovação dos contratos firmados entre as distribuidoras e a Petrobras, que se encerram até o fim de 2012.

Também não existem expectativas reais quanto ao funcionamento do mercado livre de gás, já antecipado pela legislação setorial. Com relação a esse ponto, aliás, vale observar que, mesmo em energia elétrica, que é um setor mais maduro, não atingimos o patamar de eficiência e sustentabilidade necessário.

Há de se reconhecer que diversas esferas do governo federal começam a perceber que a energia é muito mais do que uma cadeia que se fecha em si, em torno de geração ou exploração, transmissão ou transporte e distribuição. O Ministério de Minas e Energia, por exemplo, estuda, com os Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, alternativas para restabelecer a competitividade da indústria de alumínio.

No cenário global de crise, o Brasil tem condições únicas para continuar galgando postos entre os maiores PIBs do mundo. O compromisso com a melhoria da governança da administração pública, apoiado por grandes lideranças empresariais, certamente coloca o País no rumo certo para o salto no desenvolvimento com qualidade. Mas é importante que a energia seja incorporada nessa agenda como alternativa capaz de produzir resultados num prazo curto. A simples redução de distorções posicionaria melhor o País no parâmetro global de competitividade.

(*) é presidente-executivo da Abrace

Insistência e excesso de propaganda afastam um terço dos internautas dos perfis corporativos


Daniel Teixera/AE
Daniel Teixera/AE
 Uma pesquisa feita nos Estados Unidos descobriu que 52% dos consumidores norte-americanos maiores de 16 anos já se escreveram para receber novidades, seguiram o perfil ou ainda "curtiram" a página de uma empresa. Mas, apesar do número alto, quase um terço desses internautas desiste de manter o contato.
O estudo, feito pela Research Revelation, empresa de marketing especializada em pesquisas, escutou 1.500 consumidores. Eles apontaram o excesso de posts, tweets ou e-mails e a insistência em fazê-los comprar como o maior  motivo para abandonar os perfis das empresas.
Muitos empreendedores investem em perfis de redes sociais por ser um meio fácil de manter contato com muitos consumidores de uma só vez, mas o exagero na hora de falar com os clientes pode fazer com que o investimento em vez de aproximá-los, os afastem definitivamente.
Muitos desses consumidores relataram que, depois de quebrar o vínculo virtual, eles transferem a insatisfação para as lojas físicas, deixando de frequentá-las e de comprar seus produtos. Também foram apontados como motivos para o afastamento a falta de ofertas especiais e de promoções e o pouco interesse em continuar sabendo das novidades da empresa.
Estadao-PME

Governo de Minas aposta no gás natural


A crescente utilização do gás natural no país torna ainda mais estratégica as ações ligadas à prospecção e ao transporte do combustível existente no Estado de Minas Gerais. A comprovação da viabilidade econômica do insumo encontrado na Bacia do Rio São Francisco, na região central, cujo volume é cinco vezes maior do que o previsto, e a construção de um gasoduto para Uberaba (Triângulo Mineiro) são as apostas do governo estadual para finalmente alcançar a desejada diversificação econômica do Estado.

"Com a construção do gasoduto para Uberaba, fomentaremos não somente a indústria química e de fertilizantes, mas diversos outros segmentos industriais que poderão aproveitar o gás natural em suas atividades. É uma enorme vantagem para a atração de empresas. Já as descobertas na Bacia do São Francisco vão tornar o Estado um fornecedor, atraindo empresas e proporcionando aos municípios envolvidos grande desenvolvimento econômico, com a chegada de investimentos e o fortalecimento de setores como comércio e serviços, até mesmo o de prospecção", avalia a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico, Dorothea Werneck.

Atento às oportunidades, o Executivo de Minas assume o papel de protagonista em todas as iniciativas. No caso do ramal do Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol) em Uberaba, as obras serão realizadas com recursos próprios da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), que controla a Companhia de Gás de Minas Gerais (Gasmig), e irá demandar aportes de mais de R$ 750 milhões. Ao todo, serão 355 quilômetros de dutos, sendo 235 quilômetros de extensão de São Carlos (SP) até Uberaba e outros 110 quilômetros de Uberaba a Uberlândia.

O ramal até Uberaba foi projetado para atender à demanda da Petrobras, que vai construir no município uma fábrica de amônia e ureia, matéria-prima para a produção de fertilizantes. Somente para Uberaba, a demanda prevista é de 1,3 milhão de metros cúbicos de gás. Para o restante do Triângulo, a estimativa é de 1 milhão de metros cúbicos.

A previsão inicial seria de término das obras em 2014. No entanto, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) barrou, em outubro, a construção de outro ramal que, partindo de Ribeirão Preto (SP), se ligaria ao duto de Uberaba. O "sinal vermelho" veio em virtude de problemas com a nomenclatura do duto durante o licenciamento. O projeto, sob responsabilidade da Gas Brasiliano Distribuidora S/A (GBD), subsidiária da Petrobras, prevê um ramal de 151 quilômetros entre Ribeirão Preto e o Estado. O empreendimento, que era considerado como um ramal de distribuição interestadual, na verdade teria que ter outra denominação: a de "interconexão de gasodutos".

No entanto, para evitar a paralisação do projeto, a Petrobras e a Cemig anunciaram, no início de fevereiro, um acordo de investimentos. O acerto foi assinado pela Petrobras Gás S/A (Gaspetro), controladora da Gas Brasiliano, e a Cemig. Com a parceria, 40% do controle acionário da GBD serão repassados para a estatal mineira. "Entre outras coisas, a consolidação desta parceria vai viabilizar a construção do ramal do gasoduto que permitirá a implantação da fábrica de amônia em Uberaba", afirmou na ocasião a secretária.

Surpresa

Já os resultados da prospecção de gás natural na Bacia do São Francisco, próximo ao município de Morada Nova de Minas, foram melhores do que o previsto. No início do mês, Dorothea Werneck informou que as jazidas da região têm como projeção mais pessimista depósitos capazes de fornecer até 40 milhões de metros cúbicos por dia, o suficiente para substituir, com sobra, o gás importado da Bolívia, por meio do Gasbol. Os consórcios e players detentores de blocos na região têm prazo de 18 meses para confirmar ao Executivo estadual a exata dimensão das jazidas do combustível na área.
Paralelamente, o Estado, através da Cemig, contratou a Gas Energy para desenvolver um plano diretor que vai direcionar a exploração comercial do combustível encontrado na região. O estudo será concluído e entregue nos próximos meses.

Fonte: Lidia Rezende

Produzir no País custa mais que nos EUA

Além do câmbio, mão de obra ficou mais cara: em 5 anos, custo do trabalho na indústria aumentou 46% no Brasil e 3,6% nos Estados Unidos 

Raquel Landim, de O Estado de S.Paulo
SÃO PAULO - Está mais barato produzir bens industriais nos Estados Unidos do que no Brasil. A afirmação parece um contrassenso, mas se tornou realidade. A crise provocou uma reviravolta na estrutura de custos das empresas, encarecendo uma nação emergente como o Brasil e tornando os EUA um país de baixo custo.
"As empresas relatam que hoje existem condições mais favoráveis para a produção industrial nos Estados Unidos do que no Brasil", conta Gabriel Rico, CEO da Câmara Americana de Comércio (Amcham-Brasil), que reúne as multinacionais americanas instaladas no País.
O câmbio é o principal vilão por causa do enfraquecimento do dólar, especialmente diante do real, mas não é o único. Levantamento da MB Associados, feito a pedido do Estado, aponta que despesas importantes, como energia e mão de obra, subiram muito mais no Brasil do que nos Estados Unidos.
Nos últimos cinco anos, o custo do trabalho em dólar na indústria aumentou 46% no Brasil e apenas 3,6% nos Estados Unidos. Segundo Aluizio Byrro, presidente do conselho da Nokia Siemens na América Latina, a mão de obra no Brasil está entre as mais caras do mundo. "Um gerente de nível médio chega a ganhar 20% menos nos EUA do que aqui."
No Brasil, os encargos trabalhistas são pesados e a variação cambial encareceu os salários em reais. Além disso, o crescimento da economia e a baixa escolaridade da população provocou uma forte escassez de mão de obra qualificada.
Nos Estados Unidos, trabalhadores não têm direitos como décimo terceiro salário ou licença-maternidade. Com a crise, as empresas ganharam poder de barganha e conseguiram até redução de salários.
"No setor automotivo americano, por exemplo, tudo foi repensado para salvar empresas que estavam à beira da falência", diz Marcelo Cioffi, sócio da consultoria PwC. "Já o Brasil é um dos países mais onerosos do mundo para produzir carros. Não só pelo câmbio, mas também pela falta de escala, excesso de impostos, mão de obra e matéria-prima mais caras."
De acordo com Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, além da logística ruim e da carga tributária, o setor industrial brasileiro sofreu com a inflação mais alta que nos EUA, o que encareceu os custos em geral.
"Nos EUA, a crise foi essencial para a tornar a indústria mais competitiva, porque provocou demissões em massa e reduziu os custos, aumentando a produtividade", diz Vale. Nos últimos cinco anos, a produtividade industrial americana avançou 9%, ante apenas 1,1% no Brasil.
Déficit. A balança comercial entre os dois países já reflete a mudança na competitividade. Em 2005, o Brasil tinha um superávit de US$ 9,9 bilhões com os americanos. No ano passado, esse resultado foi revertido em um déficit de US$ 8 bilhões

A classe média sobe mais um degrau

Com renda familiar entre R$ 2,2 mil e R$ 7 mil, a classe B deve ser a próxima a liderar o consumo no Brasil, ultrapassando a classe C

MÁRCIA DE CHIARA - O Estado de S.Paulo
Após a forte ascensão das classes D e E para C na última década, movimento semelhante de migração social já começa a se repetir da classe C para a B. Com renda familiar mensal entre R$ 2,2 mil e R$ 7 mil, nos próximos três anos a classe B deve ser o estrato social com maior potencial de consumo, ultrapassando a classe C. Em 2015, os 15,1 milhões domicílios de classe B terão R$ 753 bilhões para gastar, nas contas do Pyxis Ibope Inteligência.
Essa cifra vai responder por 41,7% do consumo total das famílias e superar a fatia da classe C, estimada em 36,6% ou R$ 660 bilhões em 2015. "A previsão é que a classe B assuma a liderança como a maior classe em potencial de consumo", afirma a diretora de Atendimento e Planejamento de Geonegócios do Ibope Inteligência, Márcia Sola.
Nos seus cálculos, ela considerou que a renda tenha um ganho real de 2% ao ano em 2012 e 2013 e de 1,5% ao ano em 2014 e 2015. Além disso, que a taxa de desemprego oscile entre 6% e 7%. As projeções foram feitas usando dados primários de pesquisas do IBGE, atualizados com informações de empresas e análises setoriais.
Apesar liderar o ranking das classes com maior potencial de consumo em 2015, a classe B deverá representar uma fatia bem menor de domicílios (27,8%) comparada com a classe C (52% ou 28,2 milhões). Márcia destaca que a maior parte (60%) do aumento do número de domicílios de classe B, de 3,1 milhões entre 2010 e 2015, se dará por ascensão social e o restante por crescimento vegetativo. "Já na classe C, os novos domicílios serão resultado do crescimento vegetativo, principalmente."
A "revolução do B", como é chamada pelos estudiosos do assunto, já começou, na opinião dos especialistas. "A classe C atingiu o ápice de importância no mercado consumidor", afirma Marcos Pazzini, diretor da IPC Marketing, consultoria especializada em mapear o consumo.
Ele observa que a classe B2, que é a porta de entrada para a classe B, respondeu no ano passado por 25% do consumo das famílias e em 2006 a sua fatia era de 20%. Por sua vez, a classe C1, que é a porta de saída desse estrato social para a classe B, reduziu a participação no consumo de 27,3%, em 2006, para 19%, em 2011.
"A explosão do consumo da classe B já começou", afirma o arquiteto Júlio Takano, sócio da empresa Kawahara Takano, especializada em arquitetura de varejo. Tanto é que ele tem sido procurado por várias redes varejistas em busca reformulações das lojas para atingir o consumidor de classe B. Takano conta que foi o responsável pelo projetos de criação da Artex, especializada roupas de cama, e de repaginação da Le Postiche, voltada para bolsas, malas e acessórios.
Ícones. Em estudos feitos para traçar o plano de reformulação das redes, Takano descobriu que essa camada social olha para preço, mas quer também ter acesso aos ícones de consumo. "Eles querem o 'pop do top ou o 'top do pop'", ilustra. O primeiro caso é aquele produto que leva uma marca desejada, mas que se tornou acessível, especialmente por causa do crediário. O segundo caso se refere a itens populares que passam por tratamento diferenciado no ponto de venda para ganhar glamour.
"Descobrimos nas pesquisas que o consumidor da classe B frequenta as lojas da rua 25 de Março (reduto de comércio popular) e também vai à Daslu (símbolo do luxo) em busca de promoções", revela Takano.